Na complexa tapeçaria das migrações atuais, o Brasil se destaca como um destino de escolha em diversas histórias individuais. Nana, Ricardo e Domingo são apenas três entre milhares de imigrantes que escolhem o Brasil como destino para iniciar ou complementar sua jornada acadêmica. E assim como seria em qualquer lugar do mundo como estudantes estrangeiros, eles enfrentam barreiras linguísticas e culturais em sua jornada nas salas de aula brasileiras.
Nana Abena Kwanza está a quase 7 mil km de distância de casa. E assim deve permanecer até o final deste ano, quando concluir a graduação em Odontologia. A jovem saiu de Acra, capital de Gana, para estudar em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, pelo Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G). A ganense não lembra se chorou quando finalmente chegou no Brasil, apenas do cansaço e da primeira refeição que fez: um cuscuz que detestou.
Mas apesar da saudade de casa e da família, que aperta o peito, Nana conta que estudar no exterior sempre foi seu sonho. “Eu sempre quis conhecer outras culturas, e também meus pais são muito rígidos, então eu quis sair um pouquinho desse regime”, afirma ela, risonha.
Domingo Luis Antonio González Petot e Ricardo Salvador de Toma são venezuelanos e vieram para o Brasil com bolsas de estudos para concluírem seus estudos de Mestrado. Aqui, fizeram amizades com outros estudantes latinoamericanos, aprenderam sobre a cultura local, provaram novas comidas e conheceram novas danças e estilos musicais. E apesar de gostar da experiência, tinham a intenção de voltar para casa, mas por conta da crise humanitária na Venezuela, isso nunca aconteceu.
“O momento que eu decidi mudar foi quando já estava morando aqui há uma ano, fazendo o mestrado, e olhando a situação do meu país, que estava se deteriorando muito.”, disse Domingo.
Ricardo Salvador, formado em Direito na Venezuela, concluiu o mestrado em 2018 na Universidade Federal de Roraima, UFRR, e logo ingressou no doutorado em Recursos Estratégicos Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. “Não foi propriamente uma intenção se estabelecer, eu não tive um movimento migratório, eu cheguei no Brasil como visitante”, afirma.
De acordo com dados do Censo da Educação Superior no Brasil de 2019, em 2018, as universidades brasileiras possuíam mais de 16 mil estudantes estrangeiros de 176 países diferentes. O que representava 0,2% do total dos matriculados. A maioria do continente americano (46%), seguido de África (27%), depois Europa e Ásia (13%), e Oceania (1%). Entre os programas que oferecem a oportunidade de estudo para estrangeiros no Brasil, estão: o Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG), Programa GCUB de Mobilidade Internacional (GCUB-Mob), Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G).
Em Português, Inglês ou Espanhol?
Domingo era recém-chegado ao Brasil e compartilhava uma casa em Roraima com uma família de indígenas brasileiros e um amigo, e se recorda que não dominava o português na época. Então certo dia, os meninos da casa lhe pediram um pouco de sorvete. O venezuelano conta que ficou confuso, foi até à cozinha, voltou e entregou às crianças um guardanapo. A palavra "sorvete" não era familiar para Domingo, que a confundiu com "servilleta", termo em espanhol para guardanapo.
Dentre todas as diferenças culturais e dificuldades de adaptação, a língua segue sendo uma das maiores barreiras para os alunos estrangeiros no Brasil.
Formado em administração com foco em comércio internacional, Domingo veio para cursar o Mestrado em Sociedade de Fronteiras pela Universidade Federal de Roraima após ser selecionado pelo programa de bolsas de estudos da Organização dos Estados Americanos, a OEA. E não havia exigência que os candidatos tivessem proficiência na língua do país que iriam estudar, por isso chegou aqui apenas com conhecimentos básicos do português. E mesmo depois de anos, ele afirma que a barreira linguística ainda impede que se sinta totalmente integrado ao país.
“Não me sinto totalmente adaptado; isso também porque da língua. Nem sempre consigo entender tudo, às vezes também acontece que as pessoas não conseguem me entender devido ao sotaque ou vícios de linguagem”, afirma Domingo.
Nana conta que para conseguir estudar aqui precisou do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (CEPLE-Bras), que é o único certificado brasileiro de proficiência em português como língua estrangeira reconhecido oficialmente no Brasil.
“Como o idioma oficial do meu país é de língua inglesa, eu precisei vir para cá e fazer esse programa de seis meses em Macapá para fazer a prova de proficiência, que é muito difícil viu! Só quem passa a pode ficar aqui para estudar, quem reprovar volta para o seu país”, disse Nana. A experiência da jovem tem sido tranquila e desde que chegou sempre foi muito bem acolhida pelos colegas de classe e pelos professores. “Eles sempre estão disponíveis para explicar as coisas para mim quando eu não entendo, porque apesar de falar português têm coisas que ainda não sei, e eles me explicam de boa”, afirma Nana.
Que nação é essa?
As diferenças culturais entre Gana e Brasil são gritantes para a estudante de Odontologia, segundo ela, em questões religiosas, as pessoas são muito mais rígidas em Gana do que no Brasil. Dentre tantas diferenças linguísticas, musicais e gastronômicas, duas coisas foram realmente chocantes para Nana: as tatuagens, que não são comuns em seu país e o número de fumantes.
As questões raciais também são diferentes nos dois países, e a jovem ganense foi alertada disso ao se estabelecer nas terras brasileiras. Segundo a pesquisa “Percepções sobre o racismo no Brasil”, realizada pelo Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec) em abril de 2023, o racismo afeta de maneira mais intensa as pessoas negras, sendo praticamente uma opinião unânime entre os brasileiros, com 96% concordando com essa percepção. Em segundo e terceiro lugares, os indígenas e os imigrantes africanos são apontados como os grupos mais vulneráveis, com taxas de 57% e 38%, respectivamente.
Apesar da proximidade territorial e semelhanças culturais, Ricardo ficou surpreso como algumas questões são tratadas no Brasil. “Me surpreendi com o racismo enraizado na sociedade brasileira, uma tendência que parece perpetuar certas hierarquias e castas, como se fosse uma colonização de determinadas tendências sobre classes específicas”, disse. Um dos maiores estranhamento para o venezuelano foi durante o doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Me surpreendi ao perceber que em um país onde a população é predominantemente negra e parda, havia uma escassez de negros e pardos nas salas de aula universitárias”, concluiu.
A doutora em História e coordenadora do Laboratório de Estudo de Imigração da Uerj, Erica Sarmiento, explica que é importante as sociedades que acolhem imigrantes estarem atentas a como trata seus próprios cidadãos. Isso porque este tratamento se reflete na forma que os estrangeiros serão tratados. Além disso, diz que o diálogo direto com estas pessoas é fundamental para criação de políticas de acolhimento, pois elas, melhor que ninguém, entendem suas necessidades na sociedade que está sendo inserida.
“Além da xenofobia, existem outras questões que dizem respeito à sociedade que refletem nesses grupos. Então podem existir legislações de proteção ao imigrante e leis de refúgio, mas nas práticas sociais, no cotidiano da sociedade, pode ser que muitas não funcionem. Nós que os recebemos, muitas vezes, tendemos a vitimizá-los, a escolher para eles, achar que sabemos o que é bom, ou melhor, para eles, mas isso, de uma certa forma, é um erro ", afirma Sarmiento.
Mesmo com os problemas estruturais, Ricardo, doutor em recursos estratégicos internacionais, acredita que o Brasil é um país que abraça a migração e cada vez mais avança no debate da diversidade. De acordo com dados da pesquisa “Opiniões sobre Migrações”, feita pelo Datafolha, o povo brasileiro pensa que o governo nacional deveria ter mais políticas e ações para migrantes em situação vulnerável.
Uma nova vida: dados sobre imigração
Desde 2014, a Venezuela passa por uma crise política responsável por uma das maiores crises migratórias já vistas no mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas, a ONU, mais de 5,4 milhões de venezuelanos já deixaram seu país até o momento. Esse número é estimado de acordo com dados dos governos que estão acolhendo esse fluxo. Apesar das semelhanças, cada história e caminhada são individuais e com características diferentes. Nana, Domingo e Ricardo vieram para o Brasil para estudar, o que lhes assegura direitos e proteção. Mas essa não é a realidade da maioria dos imigrantes que vêm para o Brasil.
Assistir de longe uma crise humanitária no seu país não é simples, os amigos e a família são a primeira coisa que vêm à mente. Apesar do visto de estudante e da facilidade da bolsa de estudos, para Ricardo não foi fácil se estabelecer no Brasil. “Na Venezuela, a desvalorização continuava muito intensa e teve um momento que eu estava aqui com minha bolsa [de estudos] e um pouquinho de dinheiro, que enviava para minha mãe principalmente. Era o dinheiro com que ela se sustentava.”, disse o venezuelano.
Érica Sarmiento, sublinha questões estruturais, incluindo documentação e o perfil da legislação, que refletem a sociedade receptora. “Existe uma questão de desenraizamento. Então já é uma situação emocionalmente de fragilidade independente do tipo de experiência óbvio. É claro que há uma diferença entre uma pessoa que vai viver uma experiência de trabalho daquela que está fugindo ou saindo de uma situação de medo de perseguição religiosa, de guerras, de violências, de violação de direitos humanos.”, explica Érica.
Cerca de 1,3 milhão de imigrantes estão atualmente vivendo no Brasil. Ao longo da última década, de 2011 a 2020, os principais fluxos migratórios foram provenientes da Venezuela, Haiti, Bolívia, Colômbia e Estados Unidos. O número anual de novos refugiados oficialmente reconhecidos no país aumentou significativamente, passando de 86 em 2011 para 26,5 mil em 2020.
Além disso, de acordo com dados divulgados na última edição do relatório mensal do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), as solicitações para o reconhecimento da condição de refugiado também experimentaram um aumento significativo, indo de cerca de 1,4 mil em 2011 para 99,6 mil em 2023.
Os imigrantes também têm ocupado mais posições no mercado de trabalho brasileiro. Em 2011, eram 62.423; em 2020, o número aumentou para 181.358. De 2019 a 2020, os empregos formais para imigrantes e refugiados cresceram de 21,4 mil para 24,1 mil, um aumento de 12,7%. O estado de Santa Catarina se destacou como o maior criador de empregos nesse cenário. Já o número de estudantes imigrantes na educação básica no Brasil aumentou de 41.916 em 2010 para 122.900 em 2020.
Neste cenário, o trabalho humanitário e voluntário de algumas ongs são essenciais para o acesso à informação e acolhimento dessas pessoas que chegam desamparadas ao Brasil. Fundado em 1976, pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, o Projeto Páreas Cáritas iniciou um trabalho pioneiro de assistência a refugiados que chegavam à cidade. A maioria dos imigrantes vinham de países vizinhos, como Argentina, Chile e Uruguai, fugindo da perseguição política exercida pelos regimes militares da época.
Débora Alves, Assistente Social do Pares Cáritas, destaca a importância da integração local, enfrentando obstáculos como diferenças culturais, resistência de brasileiros e a necessidade de geração de renda para os recém-chegados. “Eles encontram diversas dificuldades nesse processo, a questão do idioma, as diferenças culturais, a impossibilidade de comprovar a experiência de trabalho ou formação que eles já tenham feito no país de origem”, afirmou.
De acordo com a assistente social, hoje a organização conta com mais de 60 nacionalidades diferentes, mas que nos últimos três anos a maioria dos imigrantes e refugiados vieram da Venezuela. “A necessidade de deslocamento forçado acontece por diversas razões, por questões de conflitos armados, perseguições individuais, grave e generalizada a relação dos Direitos Humanos. Então são pessoas que, de um modo geral, não escolhem sair do seu país de origem, nem deixar suas casas, seus trabalhos, mas precisam fazer isso para garantir a segurança dele próprio e também da sua família”, explicou.
Ricardo direcionou seus estudos para a realidade que atingia não só a ele, mas seus compatriotas. “Justamente ao identificar minha situação e condição, surgiu o interesse em discutir e estudar eventuais transições nos processos migratórios entre as pessoas migrantes. Cada história e caminhada são configuradas conforme acontecem situações específicas”, disse.