Quem cruza com o Matheus durante o dia e vê aquela figura barbada, vestindo roupas tradicionalmente ligadas ao gênero masculino, nem imagina que, em questão de algumas horas, ele é capaz de modificar toda sua aparência ao ponto de deixar de ser Matheus Alves dos Santos e virar Purple May DiBarro, como chama sua drag queen. É assim que ele provavelmente vai se apresentar caso vocês se encontrem em alguma festa noturna sergipana.
Só que isso de ser drag é algo relativamente recente na vida do rapaz. Ele, que tem 24 anos, foi adotado ainda enquanto bebê por uma mãe carioca e um pai sergipano, sendo o mais novo de cinco irmãos. Desde cedo, o jovem já era encantado pela arte e não era raro encontrá-lo desenhando pela casa ou criando suas mirabolantes histórias em quadrinhos.
O artista jamais fez questão de esconder quem era de verdade. Convencionalmente, pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIA+ se assumem para a família assim que se sentem confortáveis para falar sobre sua orientação sexual ou identidade de gênero, mas, nesse caso, as coisas ocorreram de uma forma tão natural que o sergipano não precisou passar por esse processo; todos ao seu redor sabiam sobre Matheus ser um homem gay, mesmo que isso nunca tivesse saído de sua boca.
Seu pai, que era visto por muitos como bruto, viu a necessidade de esclarecer essa situação com o filho e o chamou para conversar uma semana antes de sua morte. "Meus irmãos achavam que ele iria me expulsar de casa [por conta da minha sexualidade]", relembrou o rapaz. No entanto, ao saber que Alves sentia atração por pessoas do mesmo sexo, a reação de Normando foi oferecer apoio e dizer que o aceitava do jeito que era.
Depois da conversa emocionante com o pai, Matheus ganhou ainda mais confiança para se explorar não só como pessoa, mas também artisticamente. É nesse momento que ele começa a cursar design. Apesar de não ter conseguido concluir o curso, visto que durante sua passagem pela universidade, sua mãe foi diagnosticada com demência e passou a depender de seus cuidados até a data de sua morte, hoje sua fonte de renda vem de trabalhos de design que faz para clientes de forma autônoma.
Sua primeira experiência como drag queen foi em 2018, quando esse tipo de arte estava em evidência no Brasil, com nomes como Pabllo Vittar e Gloria Groove ocupando lugares antes impensáveis. Iria acontecer uma festa de Halloween em uma casa noturna de Sergipe e ele resolveu se montar pela primeira vez. Para isso, contou com a ajuda de um amigo.
Estava sendo divertido para Matheus experimentar o que é ser uma drag queen por uma noite, mas um acontecimento trágico faria isso mudar. Ele tinha combinado de se encontrar com um interesse romântico nessa festa e apenas avisou ao rapaz que iria fantasiado, sem dar tantos detalhes sobre qual seria a fantasia. Quando o homem viu o designer vestido de drag, a reação foi negativa: rejeitou ficar com ele e ainda o humilhou na frente de todos os seus amigos. Depois disso, o filho de Normando decidiu que nunca mais se montaria.
Por alguns anos, essa ideia se perpetuou, até que ele começou a pesquisar mais sobre essa arte e descobriu que havia outras formas de ser drag. Existiam as mais elegantes, mas também as exageradas, monstruosas... Foi nesse estilo que o jovem se encontrou e, em 2021, a Purple May DiBarro veio ao mundo.
Roxo é uma cor que eu me identifico porque me lembra coisas místicas, realeza, grandeza... Só que eu não queria botar o nome da minha drag de Roxo, então pensei: 'Vou colocar roxo em inglês'. Aí veio a Purple.
E é apenas o amor por essa arte que faz Matheus continuar se montando, já que dinheiro está longe de ser o forte. Hoje, ninguém em Sergipe consegue se manter apenas trabalhando como drag queen. Ele contou que, muitas vezes, as casas de show que contratam essas profissionais se recusam até a pagar o transporte, e o cachê é resumido a um drink do bar.
A bicha chama o Uber, se monta, gasta dinheiro com materiais, compra o look, chega na festa e o pagamento é R$ 20. Era melhor nem ter saído de casa.
Nesse cenário de grande desvalorização, a Purple encontra um lar: a Kiki CasaDiBarro. Ela começa a frequentar eventos organizados pela primeira casa de ballroom de Sergipe e, aos poucos, vai adentrando nesse novo universo.
Até que chega em um ponto em que a drag sai do posto de espectadora e faz sua estreia nos palcos. De cara, ela se destaca e passa a participar de concursos, inclusive, fora do estado. Atualmente, Purple tem dois títulos: Best Bizarre, uma categoria visual, e Best Lipsync, que diz respeito à performance na dublagem de músicas.
É nesse momento que ela conhece uma de suas grandes amigas: Timmy Tchanga. As duas dividem maquiagem, looks, dicas, conselhos e até mesmo a apresentação de um podcast chamado "Eita Como Opina". O projeto é focado em comentar sobre reality shows de drag queen, como "RuPaul's Drag Race".
Tanto Purple quanto Timmy atualmente estão à frente da equipe da Kiki. O foco delas é fazer o ballroom ocupar outros espaços, fugindo um pouco do convencional, que é um ambiente noturno. Uma dessas iniciativas é o VogueNique, um piquenique à tarde em lugares abertos para introduzir leigos a esse universo.
E não é só a Purple que tem uma rede de apoio, o Matheus também! No ano passado, ele já estava quase desistindo dessa história de amor, iria desinstalar aplicativos de relacionamento até que, entre uma deslizada e outra, encontrou com Henrique, um jovem de apenas 18 anos. Com medo de uma possível rejeição, ele deixou logo de cara algumas coisas: era afeminado e se apresentava como drag queen. O que costumava ser um problema para muitos foi motivo de fascínio por Henrique, que ficou ainda mais interessado por Matheus e sua história. Hoje, os dois dividem o mesmo teto com uma cadela chamada Pepita.
Os planos para o futuro de Matheus e da Purple estão entrelaçados e envolvem a criação de conteúdo. Eles querem profissionalizar a drag queen e, por isso, o foco está sendo em produzir vídeos regularmente para o YouTube para, quem sabe, poder se sustentar apenas dessa forma. Outro desejo que existe por parte deles é de participar de reality shows para conseguir ainda mais visibilidade para o trabalho. Resta saber qual dos dois iria se sobressair nas telinhas.