A aldeia Potiguara Ibirapi é uma comunidade indígena, localizada em Lagoa Grande, zona rural de Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte, na qual residem hoje cerca de mais de vinte e cinco indígenas autodeclarados, incluindo o cacique 'Ymẽmbýra. A aldeia é composta por uma grande família de tradição ceramista, que foi citada no livro “Ceará-Mirim Exemplo Nacional”, de Júlio Senna, como sendo a única olaria existente em Lagoa Grande no ano de 1938.
Em 2020, em uma palestra na cidade de Ceará-Mirim, o cacique 'Ymẽmbýra conheceu o escritor Thiago Cóstackz, autor do livro "Tappeweppe", no qual ele conta a história da resistência e retomada ancestral indígena no município de Ceará-Mirim. Depois de muita conversa, eles descobriram que havia um grau de parentesco entre eles - primos. Esse reencontro familiar foi muito importante para a aldeia Potiguara Ibirapi, pois foi com a ajuda de Thiago Cóstackz que o cacique conseguiu levar para a aldeia alguns projetos de fomento à cultura indígena, que o ajudaram a construir a oca e a realizar outros projetos no local.
Com o objetivo de transmitir a história e a cultura indígena da região para as novas gerações, a liderança da aldeia decidiu iniciar um projeto de turismo pedagógico no local. Um projeto que gera, não apenas reconhecimento para a aldeia, mas também renda para os moradores, visto que é cobrado um valor por toda a apresentação do local e ensinamentos sobre a cultura vivida naquele espaço. Além disso, há um espaço no qual são vendidos alguns produtos que são produzidos pelos próprios moradores da aldeia.
Desde o início deste projeto, diversos grupos de estudantes de escolas e universidades da região realizaram uma visita à aldeia, levando para casa o conhecimento ancestral transmitido no local. Durante a minha visita, alguns alunos da Escola Estadual Augusto Xavier de Góis, localizada no litoral de Ceará-Mirim, também estavam visitando o local, e eu os acompanhei durante a exposição.
O turismo pedagógico é dividido em dois momentos: dialógico e expositivo. Na primeira parte, que é a dialógica, é narrada a história de luta e resistência dos indígenas potiguaras ibirapis durante o período da invasão na costa potiguar. Além disso, discutimos sobre pautas muito importantes, como a luta pela demarcação de terras e pelo reconhecimento de territórios indígenas; o preconceito criado acerca do modo que um indígena deve ser e agir; dentre várias outras coisas. Também nos ensinam sobre a cultura dos potiguaras ibirapis, e dos saberes indígenas que foram passados de geração em geração.
Os Potiguaras Ibirapis de Lagoa Grande mantêm vivo o legado artesão da família através da pintura de jarros e pratos de barro. Eles adquirem essas peças “lisas”, ou seja, sem nenhum tipo de desenho, e as pintam com tinta acrílica. Esses objetos são expostos em uma mesa durante as visitas, ao lado de outros produtos que eles próprios fabricam, como biojoias, petecas, esteiras de palha e materiais escolares com temas indígenas. Além desses itens, também estão expostos outros produtos que não são produzidos por eles, mas que fazem parte da cultura indígena, como tiaras de pena e maracás. Todos esses itens estão disponíveis para venda ou apenas para apreciação durante as visitas, proporcionando uma experiência rica em cultura e artesanato indígena.
Outros objetos que ficam expostos sobre a mesa durante as visitações são o cocar e o maracá. No entanto, esses são objetos sagrados e são disponibilizados aos visitantes apenas para observação. O cocar, por exemplo, é um artefato que apenas o cacique e o pajé têm permissão para usar. Já o maracá é utilizado exclusivamente em cerimônias e rituais, como o Toré da Lua, no qual ele proporciona ritmo às musicas.
O jenipapeiro é uma árvore de grande importância para os Potiguaras Ibirapis, tanto pelo seu valor cultural, quanto pelo valor econômico. Isso porque, além do seu fruto ser utilizado para produzir a tinta que eles usam para pintarem os seus corpos durante as cerimônias e rituais religiosos, o fruto do jenipapo também é empregado na culinária, sendo o ingrediente base na produção do doce de jenipapo. Além do doce, o fruto do jenipapo também é utilizado na fabricação de bebidas, como o vinho de jenipapo. Esses produtos alimentícios servem tanto para o consumo próprio da comunidade, quanto como fonte de renda para eles.
A segunda parte do turismo pedagógico é o momento da trilha, que é guiada pelo cacique 'Ymẽmbýra, o qual nos leva à conhecer um pouco da flora da região. A trilha se inicia em uma área de reflorestamento criada pelo próprio cacique. Nessa área, ele plantou mudas de diversas árvores nativas da região. Algumas dessas árvores são frutíferas, como a pitanga, o tamarindo, e o cajueiro, e elas produzirão frutos que servirão para o consumo dos moradores da aldeia. Outras não são frutiferas e não possuem valor econômico, como a maçaranduba, o ipê amarelo e o roxo, o pau-brasil, a paineira, a timbaúba, a ubaia, a sapucaia, a cupiúba, dentre outras, mas possuem um valor cultural e simbólico. Além dessas árvores, há também o Urucum, que é um tempero colorífico, mas que serve também como tinta para pintarem os seus corpos.
Em seguida, o cacique nos leva à conhecer o restante da trilha, que fica às margens da lagoa. Ao longo do caminho, ele vai nos apresentando as árvores nativas da região, tais como a Carnaúba, da qual se utilizou a palha para cobrir a oca da aldeia; o pau-brasil; o jenipapo, que faz parte da história e da cultura da comunidade; a Sabiá e Jurema-preta, que são típicas da caatinga; dentre outras. Além das árvores, há também a fundação da antiga olaria, que é citada no livro de Júlio Senna, que rememora a cultura ceramista dos potiguaras ibirapis de Lagoa Grande.
Créditos:
João Pedro