Saberes das Missões

Editorial

Este é o Saberes das Missões, um Projeto de Preservação e Conservação dos Sítios Missioneiros Tombados pelo IPHAN coordenado pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas (PROGRAU/Faurb, Ufpel).

Ajudar na formação de trabalhadores que possam atuar nas obras de conservação das Missões é o principal objetivo do Projeto — mas não o único. Aqui você vai descobrir mais sobre a história desse lugar mágico e entender por que é tão importante preservá-lo.

Vamos te apresentar personagens que foram fundamentais para manter em pé os enormes paredões de pedra das antigas construções jesuíticas e te contar como esse trabalho vai ser continuado no futuro.

Confira os destaques desta revista:

Das ruínas, a continuidade

São sete e meia da manhã nas ruínas de São Miguel das Missões.
Paulo está chegando para trabalhar meia hora mais cedo, como de costume. Ele gosta de ver o dia clarear respirando o ar do sítio naqueles momentos antes de começar o serviço.

Atrás da igreja barroca construída em 1735, ele se reúne com os colegas no galpão que serve de depósito e cozinha para os funcionários. Amizades de mais de 40 anos construídas nas obras de conservação da Igreja.

Talhadeira, régua, marreta e pedra. Ferramentas sem as quais não se poderia ter salvo as paredes históricas que na década de 1980 corriam o risco de desabar. Na época, Paulo e os outros artífices realizaram a obra que ajudaria a conservar não apenas um prédio, mas uma memória.

“Eu tenho muito amor por esse lugar. Imagina… foi o primeiro emprego que eu tive até hoje né?”, diz o artífice Paulo Amauri Oliveira Souza, que entrou pela primeira vez no Sítio de São Miguel como servente de pedreiro e encerrou sua colaboração em 2025 como um dos artífices mais experientes da história do lugar.

Sabes o que é um artífice?

Artífice é uma palavra geralmente associada ao trabalho de arte ou artesanato. No contexto do patrimônio histórico, é o nome dado aos trabalhadores com conhecimento técnico para atuar na manutenção das construções, seja em pequenos reparos ou até grandes reformas.

No fim das contas, os dois conceitos tratam sobre a mesma questão: obras de arte. E não é isso um patrimônio como as Missões?

“O que se restaura é uma obra de arte: o que há ali não é apenas a edificação feita de pedra, mas também tentamos identificar a metodologia, as emoções, a forma como foi construída. O que se restaura é o suporte a essa obra de arte, e não o ato do artista em si.”

Vladimir Stello, arquiteto

Contratados quase na mesma época, Paulo e os colegas se aposentaram juntos, o que deixa uma grande lacuna na equipe que cuida dos sítios arqueológicos. Não há mais funcionários disponíveis no IPHAN para as obras contínuas.

É nesse vácuo que trabalha o Projeto Saberes das Missões.

A ideia é usar o conhecimento de arquitetos, técnicos e dos antigos artífices para formar novos trabalhadores capacitados para lidar com o desafio. Todos são moradores da região, uma forma de manter o cuidado dentro da própria comunidade.

Conservação

Aquela obra dos anos 80 em que Paulo foi contratado não foi a primeira das Missões, que recebeu atividades de manutenção desde a década de 1920, promovidas pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul com a ajuda da população local.

Quando os quatro sítios arqueológicos foram tombados, em 1938, o governo federal passou a realizar manutenções no espaço. Mas levou 40 anos até que uma equipe fixa fosse contratada para uma obra permanente instaurada pelo IPHAN.

Em 1994 a equipe mais duradoura foi formada: uma constelação de profissionais dedicados que permaneceram trabalhando nas ruínas até sua aposentadoria em 2025.

Esta revista é uma forma de celebrar a história desses espaços, mas, principalmente, celebrar as pessoas que vivem o território.

Celebrar quem nasce, quem cuida e quem lembra.

“Algumas paredes tinham caído, outras estavam caindo. A igreja era tomada de infiltração e vegetação. A gente tinha que fazer pedra nova, media certinho, cortava a pedra e botava massa.

Tudo para ficar seguro como está até hoje, né? Onde a gente restaurou na igreja nunca mais deu problema de soltar pedra, cair pedra ou alguma parede ceder.” — diz Paulo Souza, lembrando desse trabalho como um troféu de vida.

Os sítios arqueológicos que formam o Parque Histórico Nacional das Missões são testemunhos de uma trajetória complexa e muito representativa da formação do Brasil.

No século 16, os padres Jesuítas vindos da Europa tinham a missão de construir as chamadas reduções, pequenas cidades autogeridas formadas por populações indígenas locais, principalmente os guaranis, que, então, eram evangelizados sob uma ótica cristã e eurocêntrica.

Nas reduções, a estrutura era sempre a mesma: havia uma igreja, uma praça central e centros comunitários.

Este é o projeto de construção da redução São Miguel Arcanjo, onde hoje fica o maior sítio arqueológico das Missões.

Um dos objetivos dessas construções era proteger os indígenas da exploração pelos bandeirantes — mas, claro, os jesuítas também representavam interesses políticos: na doutrinação, estavam garantindo território físico e cultural para a coroa espanhola.

No século 18, o Tratado de Madrid firmado entre Portugal e Espanha buscou redistribuir essas terras entre as duas coroas e, por consequência, obrigou a desocupação dos povos indígenas desses territórios, espaços que eles ajudaram a construir. Ou seja: os guaranis tiveram que deixar o lugar que já conheciam por casa. Houve, então, uma enorme resistência.

A revolta contra ambos os exércitos, espanhol e português, culminou em um banho de sangue indígena e fugas massivas dos povos nativos.

Com o tempo, as construções barrocas erguidas sob a liderança dos padres jesuítas e a força de trabalho guarani foram completamente abandonadas. Ficaram para o vazio da ação do tempo, que não costuma ser gentil.

O que restou foi um conjunto de estruturas arruinadas e vestígios arqueológicos em meio a campos verdes e cidades em formação. Eram restos de um naufrágio, como descreveu Lúcio Costa, primeiro arquiteto do IPHAN a visitar o local na década de 20.

Foi no século XX que os prédios começaram a ser resgatados e protegidos como patrimônio histórico.

Patrimônio é um conceito que caminha de mãos dadas com o tempo e, assim como o próprio tempo, nunca é estático.

A ideia de patrimônio se transformou ao longo dos anos e, hoje, vai além do que se pode ver com os olhos. Darlan Marchi, doutor em Memória Social e Patrimônio Cultural, lidera uma pesquisa sobre o patrimônio nas Missões e diz que a noção de patrimônio foi ampliada:

“Não diz respeito apenas aos locais concretos das reduções mas a todo o processo que levou àquela paisagem. O processo histórico atrelado ao processo humano. Entender como a vida ali se deu e ainda se dá.”

Darlan Marchi, doutor em Memória Social e Patrimônio Cultural.

É essencialmente na vida que se concentra o Projeto Saberes das Missões.

2025: é hora de perpetuar

O Projeto Saberes das Missões abraçou um desafio imenso: transmitir a sabedoria dos artífices aposentados para novos trabalhadores da região.

Permitir que o trabalho continue, de mão em mão, e que as ruínas permaneçam preservadas.

A matéria prima da formação coletiva é uma soma: o repertório dos artífices mais o conhecimento técnico da equipe do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas (PROGRAU/Faurb, Ufpel), que assina o projeto.

Ainda há outro ingrediente: a experiência de arquitetos que não apenas atuaram nas obras do IPHAN por várias décadas como também criaram iniciativas históricas e culturais para receber a população nos sítios.

São profissionais responsáveis pela grande virada do Parque de um espaço esquecido para um espaço vivo: Luiz Antônio Bolcato Custódio, que foi diretor regional do IPHAN, e os arquitetos Matilde Villegas e Vladimir Stello, que lideraram obras de conservação e as atividades do Museu.

Sob coordenação desses profissionais, a região conquistou uma fama enorme e passou a receber turistas do mundo todo para conhecer a história das ruínas de pedra.

A contação, aliás, virou espetáculo.
No som, a voz de Fernanda Montenegro dança através das luzes ainda hoje, usando a emoção como fio condutor de uma viagem pelo patrimônio visível e invisível.

Eventos, obras, cartilhas escolares, sinalização, acessibilidade; difícil listar toda contribuição da antiga equipe de arquitetos às Missões — e é de toda essa trajetória que parte o Projeto Saberes. A ideia é aprender com o que já foi feito, atualizar e ampliar.

Além da formação de artífices, o Projeto quer incentivar o povo missioneiro a estar cada vez mais presente no espaço que é seu.

Como exemplo, algumas iniciativas tecnológicas e educativas estão prestes a circular. Um conjunto de recursos visuais e lúdicos, como jogos, cartas e maquetes 3D, estarão disponíveis em breve no Museu. Juntos, esses recursos farão parte da chamada Mesa Tangível, um espaço tecnológico de aprendizagem que vai permitir diálogo entre o conteúdo digital e o analógico, criando conexões, despertando curiosidade e gerando diversão na aprendizagem.

Perfeito para famílias e grupos escolares!

“Não tem limite de criação para contar uma história tão rica. Claro, é preciso uma mídia que não caia rapidamente em desuso e que seja o mais acessível a todas as pessoas. Mas a história em si não muda, o que muda é como se conta essa história.”

Luiz Custódio

Ritmos, ritos e saberes

Nas cidades dos Povos das Missões muita coisa se perdeu, se modificou.

Mas muita coisa ainda permanece.
Séculos após os massacres e as fugas, famílias indígenas voltaram a viver no local que seus antepassados ajudaram a construir.
Imagem do documentário Duas Aldeias uma caminhada

Os guaranis resistem no entorno das ruínas, território que dividem com outros moradores de todas as origens. Benzedeiros, erveiros, professoras, padeiros, médicas, cobradores de ônibus, mães, avós. O conhecimento ancestral misturado à rotina contemporânea, uma memória que precisa conviver com as urgências da vida.

Imagem do documentário Duas Aldeias uma caminhada

A convivência entre povos diferentes num território ferido e renascido tantas vezes é como um rito circular: de tempos em tempos, precisa ser olhado de perto, reinterpretado.

Precisa ser cuidado como paredes antigas de uma grande igreja sensível.
Preservar e respeitar todos os fios que compõem a identidade missioneira é uma preocupação do Projeto Saberes das Missões, que propõe mais do que a conservação de um espaço físico.

O que se quer é valorizar uma arquitetura da memória coletiva.

Manter acesa a inexplicável magia de uma ruína que é de todos.

“Não se trata só de bens monumentais, mas das pessoas como portadoras de conhecimento, celebrações, formas de fazer. As pessoas têm uma relação sagrada com o espaço, cada uma é diferente e a gente precisa entender isso, como essa memória se manifesta.”

Darlan

“Para algumas pessoas é conhecimento, é espelho. Para outras, é um lugar místico de culto. É um lugar que tem muitos significados para todo mundo.”

Matilde

“Muitos turistas vinham conversar com a gente e diziam: ‘Ah, isso parece um lugar mágico, tem uma energia’. Não sei se é por causa dos antepassados que que viveram lá, que construíram. Pode ser, eu não sei… Mas que é diferente é. É um mistério do lugar.”

Paulo, artífice aposentado

Conteúdos para aprofundar

Créditos das imagens:

Carolina Duarte, Edemar Dias Xavier Junior, Isabela ????, Natalin Pucinelli Lourenço

Esperamos que tenhas gostado desta viagem pela nossa história.

Até a próxima!